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A inteligência artificial generativa deixou de ser uma tecnologia restrita a especialistas e passou a fazer parte da rotina de milhões de pessoas. Ferramentas baseadas em grandes modelos de linguagem são utilizadas para escrever textos, analisar documentos, resumir contratos, programar, estudar, produzir imagens e até discutir questões pessoais.

Essa facilidade, entretanto, criou um novo problema de privacidade: a quantidade de informações pessoais, profissionais e confidenciais que usuários voluntariamente entregam aos sistemas de inteligência artificial.

Em setembro de 2026, o Centro de Estudos, Resposta e Tratamento de Incidentes de Segurança no Brasil (CERT.br), mantido pelo NIC.br, lançou um novo fascículo da Cartilha de Segurança para Internet dedicado especificamente à Inteligência Artificial.

A publicação aborda limitações dos modelos de linguagem, riscos à privacidade, golpes envolvendo IA e a necessidade de manter supervisão humana sobre aquilo que esses sistemas produzem ou executam.

Quando o prompt contém muito mais do que uma pergunta

Ao conversar com uma ferramenta de inteligência artificial, é fácil esquecer que estamos fornecendo informações a um sistema computacional operado por uma organização.

Um usuário pode começar pedindo ajuda para escrever uma mensagem e, minutos depois, inserir nomes, números de documentos, dados financeiros, informações profissionais, contratos, processos, fotografias ou detalhes sobre outras pessoas.

No ambiente corporativo, o risco pode ser ainda maior.

Funcionários podem copiar para ferramentas de IA:

  • documentos internos;
  • planilhas com dados de clientes;
  • contratos;
  • códigos-fonte;
  • relatórios financeiros;
  • informações estratégicas;
  • dados pessoais de funcionários;
  • informações protegidas por sigilo;
  • bases de dados;
  • documentos jurídicos ou administrativos.

O problema não está necessariamente em utilizar inteligência artificial, mas em utilizá-la sem compreender quais informações estão sendo transferidas, como serão processadas e quais regras se aplicam ao serviço utilizado.

O próprio CERT.br recomenda verificar as políticas de privacidade e os termos de uso das ferramentas e retirar informações sensíveis dos prompts antes de enviá-los.

Antes de enviar, pergunte: essa informação realmente precisa estar no prompt?

Uma das práticas mais importantes para preservar a privacidade é a minimização de dados.

Em vez de enviar:

“Analise este contrato de João da Silva, CPF XXX, residente na Rua XXX…”

é possível, em muitos casos, substituir essas informações por identificadores genéricos:

“Analise este contrato entre CLIENTE A e EMPRESA B…”

O mesmo princípio pode ser aplicado a relatórios, prontuários, documentos administrativos, ocorrências, processos e planilhas.

Se determinada informação não é necessária para que a IA execute a tarefa, ela não deveria ser fornecida.

Essa lógica se aproxima diretamente do princípio da necessidade previsto na Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD): o tratamento deve se limitar ao mínimo necessário para atingir determinada finalidade.

Dados de terceiros também exigem atenção

Existe outro aspecto frequentemente ignorado.

A informação inserida em uma ferramenta de IA nem sempre pertence à pessoa que está utilizando o serviço.

Um profissional pode enviar um documento contendo dados de clientes. Um advogado pode trabalhar com informações de seu cliente. Uma empresa pode inserir uma planilha contendo dados de funcionários. Um médico pode lidar com informações de pacientes.

Portanto, a pergunta não deve ser apenas:

“Eu me importo em fornecer meus dados para essa ferramenta?”

Também deve ser:

“Tenho autorização e fundamento adequado para enviar os dados desta outra pessoa para esse serviço?”

Essa distinção é particularmente importante no contexto da LGPD.

A utilização de uma ferramenta de inteligência artificial não elimina as responsabilidades relacionadas ao tratamento de dados pessoais.

Informações sensíveis merecem cuidado redobrado

O risco aumenta quando os prompts contêm dados pessoais sensíveis.

A LGPD estabelece proteção especial para informações referentes, entre outros aspectos, à saúde, biometria, origem racial ou étnica, convicções religiosas e opiniões políticas.

Dependendo da atividade profissional, essas informações podem aparecer naturalmente em documentos utilizados no trabalho.

Copiar integralmente um documento para uma ferramenta de IA pode significar transferir para o serviço muito mais informações do que o usuário percebe inicialmente.

Por isso, uma prática recomendável é realizar uma revisão do conteúdo antes do envio, removendo informações desnecessárias ou substituindo dados identificáveis por marcadores.

A IA não deve ser tratada como um ambiente confidencial por padrão

Outro comportamento que merece atenção é a utilização de chatbots como espaços para confidências pessoais.

Pessoas passaram a conversar com sistemas de inteligência artificial sobre relacionamentos, dificuldades financeiras, problemas profissionais, questões familiares e outras situações extremamente particulares.

O CERT.br chama atenção justamente para esse comportamento.

Na Cartilha de Segurança para Internet, a instituição alerta que uma IA não deve ser confundida com um terapeuta e ressalta que uma interação com inteligência artificial não possui, por si só, o sigilo profissional existente em determinadas relações humanas protegidas juridicamente.

Isso não significa que nenhuma ferramenta de IA possua mecanismos de privacidade. As políticas variam entre fornecedores, produtos, planos empresariais e configurações.

Significa que o usuário deve evitar presumir confidencialidade sem antes compreender as condições aplicáveis ao serviço.

O problema das respostas convincentes, mas incorretas

Privacidade não é o único risco destacado pelo CERT.br.

Modelos de linguagem podem produzir respostas aparentemente coerentes e extremamente convincentes mesmo quando a informação apresentada está incorreta.

Esse fenômeno costuma ser associado às chamadas alucinações dos modelos de IA.

Por isso, a recomendação é verificar informações importantes antes de utilizá-las para tomar decisões.

Quanto maior o impacto potencial da decisão, maior deve ser a supervisão humana.

Essa preocupação se torna especialmente relevante em áreas como saúde, direito, segurança, finanças e administração pública.

A IA pode auxiliar na análise, organização e produção de informações. Isso não significa que deva substituir automaticamente o profissional responsável pela decisão.

Agentes de IA aumentam o nível de risco

A discussão se torna ainda mais relevante com o crescimento dos chamados agentes de inteligência artificial.

Um chatbot tradicional geralmente recebe uma pergunta e produz uma resposta. Um agente pode receber permissões para executar ações.

Dependendo da arquitetura utilizada, ele pode consultar documentos, acessar bancos de dados, utilizar APIs, navegar na Internet, manipular arquivos ou interagir com sistemas externos.

O CERT.br recomenda limitar as ações permitidas aos agentes e manter mecanismos de supervisão.

Nesse cenário, o princípio do menor privilégio torna-se essencial.

Um agente deveria receber apenas as permissões estritamente necessárias para executar determinada tarefa.

Quanto maior sua autonomia e quanto maior o acesso concedido aos sistemas da organização, maior será o impacto potencial de um erro, comando malicioso ou comportamento inesperado.

Inteligência artificial também pode potencializar golpes

A mesma tecnologia utilizada para aumentar produtividade pode ser utilizada por criminosos.

Ferramentas generativas permitem produzir textos convincentes, imagens falsas, áudios sintéticos e outros conteúdos capazes de aumentar a credibilidade de fraudes.

Ataques de engenharia social podem se tornar mais personalizados quando criminosos combinam IA com informações obtidas em redes sociais, vazamentos de dados e fontes públicas.

Isso cria um cenário no qual mensagens fraudulentas deixam de apresentar alguns dos sinais tradicionais utilizados para identificar golpes, como erros grosseiros de português ou textos mal redigidos.

A qualidade da mensagem, portanto, deixou de ser um indicador confiável de autenticidade.

Como utilizar IA reduzindo os riscos à privacidade

Algumas medidas simples podem reduzir significativamente a exposição:

Não forneça dados desnecessários. Antes de enviar um prompt, verifique se nomes, documentos, endereços, telefones ou outras informações realmente precisam estar presentes.

Anonimize ou pseudonimize documentos sempre que possível. Substitua identificadores reais por referências genéricas.

Evite inserir credenciais. Senhas, tokens de API, chaves privadas e códigos de autenticação não devem ser tratados como conteúdo comum de um prompt.

Leia as políticas do serviço utilizado. Verifique aspectos relacionados a armazenamento, retenção, utilização das informações e controles disponíveis.

Tenha cuidado com informações de terceiros. O fato de você possuir acesso legítimo a determinado dado não significa automaticamente que possa transferi-lo para qualquer plataforma.

Estabeleça regras corporativas. Empresas e órgãos públicos precisam definir quais ferramentas podem ser utilizadas e quais categorias de informação podem ou não ser processadas nelas.

Revise as respostas. Informações produzidas pela IA podem conter erros.

Limite agentes de IA. Conceda somente as permissões necessárias e mantenha supervisão humana para ações relevantes.

O verdadeiro preço da conveniência

A inteligência artificial oferece ganhos reais de produtividade e tende a se tornar cada vez mais integrada ao cotidiano.

O desafio não está em abandonar essas ferramentas, mas em aprender a utilizá-las sem transformar conveniência em exposição desnecessária.

Durante anos, especialistas em segurança alertaram usuários para não publicar informações pessoais indiscriminadamente nas redes sociais. A inteligência artificial introduziu uma nova versão do mesmo problema.

Agora, muitas informações não são publicadas abertamente. Elas são digitadas voluntariamente em uma caixa de diálogo porque o usuário acredita estar mantendo uma conversa privada com um assistente.

Essa mudança de percepção talvez seja um dos principais desafios de privacidade da era da inteligência artificial.

Antes de pressionar “Enviar”, portanto, vale uma pergunta simples:

Eu entregaria esta mesma informação a uma empresa ou pessoa que não conheço?

Se a resposta for não, provavelmente vale revisar o prompt antes de enviá-lo.

Fonte: CERT.br/CGI.br — Novo fascículo orienta sobre o uso seguro e responsável da inteligência artificial

Material oficial: CERT.br — Fascículo Inteligência Artificial da Cartilha de Segurança para Internet

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