O governo federal atualizou as regras para contratação de serviços de infraestrutura tecnológica e suporte aos usuários nos órgãos do Poder Executivo. O novo modelo amplia os perfis profissionais utilizados como referência nas licitações, reajusta os valores salariais empregados na formação dos custos e incorpora funções relacionadas à inteligência artificial, segurança cibernética, computação em nuvem e sustentabilidade.
As mudanças foram estabelecidas pela Portaria SGD/MGI nº 5.921, de 22 de julho de 2026, que altera o modelo instituído pela Secretaria de Governo Digital em 2023. As novas disposições serão aplicadas, a partir de 1º de setembro, aos órgãos e entidades integrantes do Sistema de Administração dos Recursos de Tecnologia da Informação — Sisp.
Com a atualização, o número de perfis profissionais de referência passa de 14 para 20. Foram acrescentadas as seguintes especialidades:
- especialista em gerenciamento de custos em nuvem;
- analista de teste de intrusão;
- analista DevOps;
- analista DevSecOps;
- especialista em infraestrutura de inteligência artificial;
- especialista em práticas sustentáveis de infraestrutura de TIC.
Controle dos custos em nuvem
Uma das novidades é a formalização do especialista em gerenciamento de custos em nuvem. O profissional deverá acompanhar o consumo dos ambientes contratados, identificar desperdícios, recursos ociosos e capacidades superdimensionadas, além de propor ajustes para melhorar a eficiência dos gastos.
Entre suas atribuições estão a elaboração de painéis de controle, projeções financeiras, alertas de consumo, políticas de identificação dos recursos tecnológicos e recomendações para adequação da capacidade contratada.
A criação da função consolida a adoção das práticas de FinOps na Administração Pública, integrando as áreas técnicas, financeiras e de gestão contratual no acompanhamento dos serviços de computação em nuvem.
Reforço na segurança cibernética
O novo modelo também passa a prever o analista de teste de intrusão, profissional responsável por executar avaliações ofensivas controladas nos ambientes tecnológicos do governo.
Os testes poderão abranger aplicações, redes, serviços digitais, bancos de dados, interfaces de programação e plataformas de nuvem. O objetivo será localizar vulnerabilidades, avaliar os riscos associados e recomendar medidas corretivas antes que as falhas sejam exploradas em ataques reais.
Também foram incorporados os perfis de analista DevOps e DevSecOps. O primeiro ficará voltado à automação dos processos de integração, implantação e operação de sistemas, incluindo infraestrutura como código, conteinerização, orquestração, monitoramento e controle de versões.
O profissional de DevSecOps deverá integrar mecanismos de segurança ao ciclo de desenvolvimento e operação dos sistemas. Suas atividades poderão incluir análise automatizada de código, verificação de dependências, tratamento de vulnerabilidades, inspeção de contêineres, configuração segura dos ambientes e realização de testes automatizados.
Especialista em infraestrutura de inteligência artificial
Entre as principais alterações está a criação de um perfil específico para a infraestrutura utilizada por sistemas de inteligência artificial, aprendizado de máquina e IA generativa.
A função não será destinada diretamente ao desenvolvimento dos modelos, mas à implantação, operação e sustentação dos ambientes computacionais necessários para treiná-los e executá-los.
O especialista poderá atuar na arquitetura e administração de estruturas com unidades de processamento gráfico — GPUs —, clusters de alto desempenho e plataformas destinadas ao treinamento, ajuste fino e inferência de modelos de inteligência artificial.
As atribuições abrangem ainda contêineres, ferramentas de orquestração, pipelines de MLOps e LLMOps, catálogos de modelos, bancos de dados vetoriais, interfaces de inferência, mecanismos de cache, observabilidade, escalabilidade e alta disponibilidade.
O profissional também deverá trabalhar na integração das plataformas de IA com infraestruturas locais, ambientes de nuvem e arquiteturas híbridas, em conjunto com equipes de dados, segurança, DevOps, DevSecOps, FinOps e gestão de contratos.
Com a criação desse perfil, os órgãos federais passam a dispor de uma referência própria para estimar e contratar serviços de operação de infraestrutura de inteligência artificial. Anteriormente, essas atividades precisavam ser enquadradas em funções mais abrangentes, como especialista em nuvem ou analista de automação.
Sustentabilidade passa a integrar os contratos
A portaria também incorpora formalmente conceitos como TIC Sustentável, Green IT e GreenOps ao modelo de contratação pública.
Sempre que houver viabilidade técnica e compatibilidade com os níveis de serviço, os órgãos poderão exigir medidas para reduzir o consumo de energia, processamento, armazenamento e tráfego de rede, além de promover o uso racional dos recursos computacionais e o descarte ambientalmente adequado dos equipamentos.
Os contratos poderão estabelecer indicadores relacionados ao consumo de recursos, aos custos operacionais e às emissões de carbono.
Para apoiar essas atividades, foi criado o perfil de especialista em práticas sustentáveis de infraestrutura de TIC. Esse profissional poderá atuar em centros de dados, redes, ambientes de nuvem, sistemas de armazenamento e equipamentos, buscando ampliar a eficiência energética e reduzir desperdícios e resíduos tecnológicos.
Reajuste dos salários de referência
A nova norma também substitui a tabela salarial utilizada para calcular os custos estimados das contratações. Os valores não correspondem necessariamente à remuneração final dos trabalhadores ou ao preço cobrado pelas empresas, mas representam a parcela salarial considerada pela Administração na formação do orçamento de referência.
O salário-base do técnico de suporte júnior passou de R$ 1.409,97 para R$ 1.852,02, aumento aproximado de 31,4%. Para o gerente de suporte, o valor subiu de R$ 8.327,89 para R$ 12.116,67, elevação de cerca de 45,5%.
A referência do gerente de infraestrutura aumentou de R$ 14.690,30 para R$ 18.367,55. Já o gerente de segurança da informação passou de R$ 19.454,48 para R$ 22.945,83.
Um dos maiores reajustes ocorreu no perfil de técnico júnior em manutenção de equipamentos, cujo valor foi elevado de R$ 1.424,34 para R$ 2.391,38, crescimento próximo de 68%.
O analista de sistemas de automação júnior passou de R$ 4.127,87 para R$ 6.066,67. Para o especialista em nuvem pleno, a referência aumentou de R$ 10.515,73 para R$ 13.458,33. No nível sênior, o valor passou de R$ 14.995,75 para R$ 17.476,53.
Novo cálculo dos custos
Além da remuneração de referência, o cálculo dos contratos considera o chamado fator-k, multiplicador que reúne encargos trabalhistas, benefícios, tributos, despesas administrativas, margem de lucro e outros componentes do preço.
No modelo anterior, a referência geral era de 2,28, admitindo-se outro valor devidamente justificado, limitado a 3. Agora, cada perfil profissional terá um fator próprio, variando entre 1,97 e 2,72.
Em geral, os profissionais com menores salários terão multiplicadores proporcionalmente mais elevados. O técnico de suporte júnior, por exemplo, terá fator-k de 2,72. Para o gerente de infraestrutura, o fator será de 1,98; para o gerente de segurança da informação, de 1,97; e para o especialista em nuvem pleno, de 2,01.
A individualização do fator torna a estimativa mais precisa, mas também impede que o impacto financeiro das mudanças seja calculado apenas com base nos reajustes salariais.
Automação poderá alterar a composição das equipes
A portaria também elimina a recomendação que relacionava diretamente os salários de referência e o número mínimo de profissionais à análise de eventual inexequibilidade das propostas.
Os órgãos continuarão obrigados a verificar se os preços apresentados pelas empresas são suficientes para executar os serviços. Entretanto, as contratadas poderão justificar equipes menores por meio do uso de automação e de outras soluções tecnológicas, desde que demonstrem previamente que conseguirão manter os níveis mínimos de qualidade e desempenho.
O novo modelo sinaliza uma mudança na lógica dos contratos públicos de infraestrutura tecnológica. Em vez de concentrar a avaliação apenas na quantidade de profissionais disponibilizados, a Administração deverá atribuir maior importância à automação, à especialização técnica, à segurança, à eficiência dos custos e ao cumprimento dos indicadores de serviço.

