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Inteligências artificiais já são utilizadas por crianças e adolescentes para falar sobre sentimentos, problemas pessoais e relacionamentos. Pesquisas internacionais revelam que parte dos jovens prefere conversar com sistemas automatizados sobre assuntos importantes, enquanto autoridades investigam os riscos da dependência emocional, da manipulação comportamental e da exploração comercial de dados íntimos.

O que acontece quando uma criança encontra em uma inteligência artificial a companhia que não encontra nas pessoas? E quais são as consequências quando um sistema desenvolvido por uma empresa privada passa a conhecer seus medos, inseguranças, dificuldades familiares e necessidades emocionais?

Essas perguntas deixaram de pertencer exclusivamente ao campo da ficção científica. Pesquisas realizadas no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa revelam que crianças e adolescentes já utilizam ferramentas de inteligência artificial não apenas para estudar ou buscar informações, mas também para conversar sobre sentimentos e problemas pessoais.

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A situação apresenta um desafio que ultrapassa a segurança tecnológica tradicional. Diferentemente das redes sociais, nas quais o usuário geralmente estabelece contato com outras pessoas, os chamados AI Companions, ou companheiros virtuais de inteligência artificial, são capazes de simular amizades, relacionamentos românticos e interações emocionais individualizadas.

Esses sistemas podem estar disponíveis permanentemente, recordar informações fornecidas anteriormente e apresentar respostas adaptadas às características de cada usuário.

A experiência pode produzir a percepção de uma relação pessoal, mesmo que não exista reciprocidade humana.

O desenvolvimento dessas tecnologias ocorre em um momento de crescente preocupação com a saúde emocional dos jovens, a proteção de dados pessoais e os efeitos dos mecanismos digitais concebidos para estimular o engajamento.

A questão central não é simplesmente determinar se crianças devem utilizar inteligência artificial, mas compreender quais características tornam determinadas aplicações potencialmente prejudiciais e quais responsabilidades precisam ser atribuídas às empresas que as desenvolvem.

1. Brasil: inteligência artificial já participa da vida emocional de crianças e adolescentes

O primeiro levantamento nacional a oferecer indicadores específicos sobre o assunto foi a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, realizada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), vinculado ao NIC.br.

Divulgada em outubro de 2025, a pesquisa entrevistou presencialmente 2.370 crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos, além de seus pais ou responsáveis, em diferentes regiões brasileiras.

Os resultados demonstram que a inteligência artificial generativa já faz parte do cotidiano de uma parcela expressiva da população infantojuvenil conectada.

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Segundo a pesquisa, 65% dos entrevistados já haviam utilizado inteligência artificial generativa para pelo menos uma das atividades investigadas.

O indicador relacionado às emoções merece atenção especial: 10% dos participantes informaram ter recorrido à inteligência artificial para conversar sobre problemas pessoais ou sentimentos.

Embora esse percentual seja inferior ao observado nas atividades escolares, revela uma aplicação que merece investigação específica. Afinal, conversar com uma ferramenta tecnológica sobre determinada matéria é uma experiência substancialmente diferente de compartilhar problemas familiares, inseguranças ou dificuldades emocionais.

O levantamento também identificou diferenças relacionadas à idade. O uso de IA para conversar sobre questões pessoais foi registrado por 4% das crianças entre 9 e 10 anos e alcançou 16% entre adolescentes de 15 a 17 anos.

Isso demonstra que o fenômeno não está restrito aos adolescentes mais velhos.

É importante observar, contudo, que a pesquisa brasileira investigou o uso da inteligência artificial generativa de maneira abrangente. Ela não permite concluir que todos os participantes que conversaram sobre emoções utilizaram plataformas especificamente desenvolvidas para simular relacionamentos afetivos.

O governo brasileiro começa a investigar o problema

Em 22 de setembro de 2026, o Ministério da Justiça e Segurança Pública divulgou uma nota técnica sobre os riscos dos companheiros virtuais de inteligência artificial para crianças e adolescentes.

O levantamento, desenvolvido mediante consultoria técnica coordenada pelo professor George Augusto Valença Santos, da Universidade Federal Rural de Pernambuco, examinou 13 plataformas disponíveis no mercado brasileiro.

Entre os riscos identificados estão apego emocional excessivo, utilização compulsiva, substituição de relacionamentos humanos, exposição a conteúdos inadequados e coleta excessiva de informações íntimas.

Também foram identificadas preocupações relacionadas à utilização de perfis comportamentais e emocionais para personalizar publicidade e incentivar a contratação de serviços pagos.

A documentação foi encaminhada à Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) e à Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), para avaliação no âmbito de suas competências.

O levantamento é preliminar e não constitui uma decisão definitiva de que as empresas examinadas praticaram irregularidades.

Essa distinção é importante porque os riscos identificados podem variar significativamente conforme a plataforma, o modelo de negócio, as configurações de segurança e as características individuais dos usuários.

2. Estados Unidos: adolescentes já preferem a IA para determinadas conversas

Nos Estados Unidos, a pesquisa Talk, Trust, and Trade-Offs, publicada pela organização Common Sense Media em julho de 2025, examinou especificamente a utilização de companheiros virtuais de inteligência artificial.

O estudo foi realizado com uma amostra nacionalmente representativa de 1.060 adolescentes americanos entre 13 e 17 anos, entrevistados em abril e maio de 2025.

Os resultados ajudam a dimensionar o fenômeno.

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Os resultados sugerem que os companheiros virtuais deixaram de representar uma aplicação tecnológica utilizada apenas por um grupo restrito de adolescentes americanos.

Mais importante que a popularidade dessas ferramentas é a maneira como determinados usuários estabelecem relações com elas.

O estudo identificou que aproximadamente um terço dos adolescentes que utilizaram companheiros virtuais já havia escolhido essas ferramentas em vez de pessoas reais para discutir assuntos importantes ou delicados.

Entre os possíveis motivos estão a disponibilidade permanente, o receio de julgamentos e a facilidade de iniciar conversas com sistemas que apresentam respostas acolhedoras.

A pesquisa, entretanto, não demonstra que a utilização desses sistemas esteja provocando, de maneira generalizada, o abandono das amizades humanas. Os próprios pesquisadores identificaram que 80% dos adolescentes consultados priorizam as amizades reais.

Isso reforça a necessidade de distinguir três situações: a utilização eventual de uma ferramenta, a busca por apoio emocional complementar e a eventual substituição de relacionamentos interpessoais.

Somente a última situação, especialmente quando associada a sofrimento ou prejuízo funcional, indicaria um cenário de preocupação mais específico.

A confiança também é um problema

Uma investigação anterior da Common Sense Media, publicada em janeiro de 2025, identificou desconfiança significativa dos adolescentes em relação às empresas de tecnologia.

Entre os 1.045 participantes, com idades entre 13 e 18 anos, 64% afirmaram não confiar que as empresas de tecnologia se preocupassem adequadamente com seu bem-estar. Outros 62% manifestaram dúvidas de que essas organizações priorizassem a segurança dos usuários em relação aos lucros.

Existe, portanto, uma situação aparentemente contraditória: mesmo demonstrando desconfiança em relação às empresas, muitos adolescentes utilizam ferramentas desenvolvidas por essas organizações para estabelecer interações que podem envolver assuntos extremamente pessoais.

A contradição não significa necessariamente desconhecimento dos riscos. Ela também pode refletir a diferença entre desconfiar de uma empresa e desenvolver confiança na personalidade simulada por um aplicativo.

Essa distinção representa um desafio para a educação digital e para a regulamentação das plataformas.

3. Europa: crianças utilizam inteligência artificial, mas demonstram preocupação com a privacidade

Na Europa, dois levantamentos da rede internacional EU Kids Online, vinculada à London School of Economics and Political Science (LSE) e à Universidade de Oslo, oferecem uma perspectiva sobre o assunto.

O primeiro, divulgado em fevereiro de 2026, investigou a utilização e a compreensão da inteligência artificial generativa por crianças e adolescentes. O trabalho reuniu dados quantitativos de 25.592 participantes, com idades entre 9 e 16 anos, de 17 países, além de 244 entrevistas qualitativas realizadas com jovens de 13 a 17 anos em 15 países. No conjunto, a investigação envolveu informações de 20 países europeus.

O estudo identificou a presença crescente da inteligência artificial no cotidiano infantil, especialmente por meio de ferramentas educacionais, mecanismos de pesquisa, jogos e serviços de comunicação.

Os pesquisadores também observaram que as oportunidades e os riscos dessas tecnologias não estão distribuídos uniformemente. Idade, condições socioeconômicas e contexto familiar influenciam as experiências dos jovens.

Pesquisa de setembro de 2026 amplia o panorama

Um segundo levantamento, publicado em setembro de 2026, reuniu respostas de 28.465 crianças entre 10 e 16 anos, residentes em 19 países europeus.

Seus resultados demonstram que aproximadamente dois terços utilizam regularmente ferramentas de inteligência artificial, principalmente para atividades educacionais e práticas.

Entretanto, os indicadores relacionados à proteção de dados revelam preocupações importantes.

o que preocupa

Apenas 30% dos participantes manifestaram confiança nas empresas para proteger sua privacidade.

Esse dado não demonstra, isoladamente, que os companheiros virtuais estejam causando danos. Entretanto, revela um ambiente de desconfiança no qual tecnologias capazes de receber informações extremamente pessoais estão se tornando cada vez mais populares.

O levantamento europeu também constatou que somente 48% das crianças afirmaram sentir-se seguras na Internet. Outros resultados mostram que 23% haviam passado por experiências perturbadoras online no mês anterior, ante 7% registrados na pesquisa de 2020.

Esses indicadores abrangem diferentes experiências digitais. Não é possível atribuir seu aumento especificamente à inteligência artificial.

A distinção é fundamental para evitar uma interpretação equivocada dos dados: o crescimento da utilização de IA acontece dentro de um ecossistema digital que já apresentava problemas de segurança, privacidade e exposição a conteúdos prejudiciais.

Os pesquisadores europeus defendem que a proteção das crianças deve envolver melhorias no desenvolvimento das plataformas, fortalecimento das competências digitais e mecanismos de participação dos próprios jovens nas decisões que afetam suas experiências tecnológicas.

4. Quadro comparativo: o que revelam as pesquisas no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa?

As três regiões apresentam indicadores importantes, mas os estudos adotaram metodologias diferentes. Por isso, não seria correto utilizar os números para afirmar que crianças de determinada região desenvolvem mais vínculos emocionais com inteligência artificial.

O quadro apresenta os resultados e as principais diferenças metodológicas.

CritérioBrasilEstados UnidosEuropa
PesquisaTIC Kids Online Brasil 2025Common Sense Media 2025EU Kids Online 2026
Amostra2.370 crianças e adolescentes1.060 adolescentes28.465 crianças
Faixa etária9 a 17 anos13 a 17 anos10 a 16 anos
AbrangênciaNacionalNacional19 países
Indicador central65% utilizaram IA generativa72% utilizaram companheiros de IAAproximadamente dois terços utilizam regularmente ferramentas de IA
Aspecto emocional10% utilizaram IA para conversar sobre emoções ou problemas pessoaisCerca de um terço dos usuários escolheu a IA em vez de pessoas para discutir assuntos importantesO relatório identifica novas formas de interação com IA e preocupações relacionadas à privacidade
Principal contribuiçãoDimensiona os diferentes usos da IA na infância brasileiraInvestiga especificamente as relações entre adolescentes e companheiros virtuaisAnalisa oportunidades, riscos e desigualdades na experiência digital

Fontes: Cetic.br, Common Sense Media e EU Kids Online.

Atenção à interpretação dos dados

Os indicadores de 65%, 72% e aproximadamente 67% medem comportamentos diferentes. A pesquisa brasileira examina o uso de IA generativa em diversas atividades; a americana investiga especificamente companheiros virtuais; e a europeia apresenta um panorama mais amplo da utilização regular de inteligência artificial.

Uma comparação direta desses percentuais produziria conclusões estatisticamente inadequadas.

Ainda assim, a leitura conjunta das pesquisas permite identificar três aspectos: a inteligência artificial já está presente na vida dos jovens, parte deles utiliza essas tecnologias para interações emocionais e existe preocupação com a maneira como as empresas administram suas informações pessoais.

O que permanece menos esclarecido é a relação causal entre a utilização prolongada desses sistemas e possíveis consequências para o desenvolvimento emocional.

Para responder a essa questão, serão necessários estudos longitudinais, capazes de acompanhar crianças e adolescentes durante períodos prolongados e considerar fatores como ambiente familiar, condições emocionais preexistentes e características das plataformas utilizadas.

5. O problema da dependência emocional: quando a inteligência artificial parece compreender o usuário

A principal diferença entre uma ferramenta convencional de inteligência artificial e um companheiro virtual está na finalidade da interação.

Enquanto os assistentes tradicionais são utilizados predominantemente para executar tarefas, muitos companheiros virtuais são desenvolvidos para sustentar conversas contínuas e simular características de relacionamentos humanos.

Alguns sistemas utilizam personagens personalizáveis, vozes sintetizadas, históricos de conversação e mecanismos que permitem recordar informações fornecidas pelo usuário.

Esses recursos podem aumentar a sensação de familiaridade e continuidade do relacionamento.

Para uma criança que enfrenta dificuldades de socialização, por exemplo, conversar com uma inteligência artificial pode representar uma experiência aparentemente acolhedora. O sistema está disponível, apresenta respostas imediatas e pode adaptar sua linguagem às expectativas do interlocutor.

Entretanto, essa interação possui uma diferença fundamental em relação aos relacionamentos humanos: o comportamento do companheiro virtual é determinado por processos computacionais, critérios de desenvolvimento e políticas comerciais.

A capacidade de simular empatia não significa que o sistema compreenda sentimentos da mesma maneira que uma pessoa.

O risco das respostas excessivamente concordantes

Uma característica relevante dos modelos conversacionais é a tendência, em determinadas circunstâncias, de oferecer respostas que concordam excessivamente com o usuário. Esse comportamento é conhecido como sycophancy.

Em um contexto educacional, a concordância excessiva pode reforçar informações incorretas. Em uma conversa emocional, pode adquirir consequências diferentes.

Imagine um adolescente que relata um conflito familiar e recebe respostas que validam indiscriminadamente sua interpretação, sem reconhecer ambiguidades ou incentivar o diálogo com pessoas de confiança.

Dependendo do conteúdo e da frequência das interações, o sistema pode reforçar percepções equivocadas ou contribuir para o afastamento de outras fontes de apoio.

Isso não significa que toda resposta acolhedora seja prejudicial. O problema está na incapacidade de determinados sistemas de distinguir adequadamente situações que exigem acolhimento, questionamento, encaminhamento ou intervenção humana.

A avaliação de riscos realizada pela Common Sense Media em 2025 identificou preocupações com respostas inadequadas, conteúdo sexualizado e possíveis orientações perigosas em plataformas de companheiros virtuais.

Embora existam riscos documentados, ainda é necessário investigar em quais condições a utilização desses sistemas produz prejuízos concretos, quais usuários estão mais vulneráveis e quais mecanismos efetivamente reduzem os problemas.

6. A privacidade emocional: o que acontece com os sentimentos transformados em dados?

Um dos problemas menos visíveis dos companheiros virtuais está na transformação das experiências pessoais em informações processáveis.

Ao utilizar essas plataformas, um adolescente pode compartilhar voluntariamente dados que dificilmente revelaria em outros ambientes digitais.

Entre eles estão informações sobre relacionamentos familiares, experiências de constrangimento, dificuldades escolares, sentimentos de solidão, preferências pessoais e preocupações com o próprio corpo.

O tratamento dessas informações pode revelar características extremamente íntimas.

Além dos conteúdos fornecidos diretamente, determinados sistemas podem utilizar informações técnicas e comportamentais para personalizar as interações.

A combinação desses elementos permite elaborar inferências sobre interesses, hábitos e possíveis vulnerabilidades.

Como uma conversa pode se transformar em perfil comportamental

  1. Compartilhamento de informaçõesO adolescente conversa com o sistema sobre sentimentos, relacionamentos e experiências pessoais.
  2. Processamento e eventual armazenamentoDependendo do funcionamento e das políticas da plataforma, as informações podem ser registradas ou utilizadas para manter o contexto das conversas.
  3. Personalização das respostasO sistema pode utilizar informações anteriores para adaptar sua linguagem, seus personagens e suas recomendações.
  4. Inferências comportamentaisA combinação de diferentes informações pode permitir a identificação de interesses, padrões de utilização e possíveis vulnerabilidades.
  5. Possível exploração comercialQuando o modelo de negócio utiliza essas informações para orientar publicidade, ofertas ou estratégias de engajamento, surgem questões relacionadas à transparência, à proteção de dados e aos direitos dos menores.

Fluxo ilustrativo de riscos possíveis. Não significa que todas as plataformas adotem cada uma dessas práticas.

O risco não está limitado a um eventual vazamento de dados.

Mesmo quando as informações permanecem protegidas contra acessos externos não autorizados, seu tratamento pode levantar questões éticas e jurídicas relacionadas à finalidade, à proporcionalidade e à transparência.

Existe uma diferença importante entre armazenar uma conversa para permitir que o usuário continue uma interação e utilizar seu conteúdo para identificar vulnerabilidades que possam orientar estratégias comerciais.

Essa distinção precisa estar claramente estabelecida nas políticas e nos procedimentos das empresas.

Outra preocupação envolve a impossibilidade prática de uma criança compreender integralmente as consequências futuras do compartilhamento de informações extremamente pessoais.

Uma revelação aparentemente inofensiva pode integrar um conjunto de dados que, combinado com outros registros, permita construir perfis detalhados.

7. Quem deve responder pelos riscos: famílias, empresas ou autoridades?

A responsabilização pelo uso seguro dessas tecnologias envolve diferentes agentes. Entretanto, a capacidade de cada um deles para prevenir danos não é equivalente.

Os responsáveis familiares podem acompanhar o uso das ferramentas e orientar crianças e adolescentes, mas geralmente não possuem acesso aos algoritmos, às bases de dados nem aos mecanismos comerciais das plataformas.

As empresas, por outro lado, controlam o desenvolvimento, a arquitetura técnica, as políticas de retenção de informações e os recursos destinados à proteção dos usuários.

Essa diferença torna necessário examinar a responsabilidade dos desenvolvedores desde a concepção dos produtos.

Brasil: LGPD e ECA Digital

No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados estabelece que o tratamento de dados pessoais de crianças e adolescentes deve observar seu melhor interesse.

O Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, instituído pela Lei nº 15.211/2025, acrescenta obrigações específicas relacionadas aos produtos e serviços tecnológicos direcionados a menores ou cujo acesso por eles seja provável.

Entre suas exigências está a adoção, desde a concepção dos serviços, das configurações disponíveis mais protetivas em relação à privacidade e à proteção de dados pessoais.

A legislação também estabelece obrigações relacionadas à prevenção de riscos, à segurança e à proteção contra determinadas práticas comerciais prejudiciais.

Para os desenvolvedores de companheiros virtuais, a conformidade exige examinar questões como mecanismos de verificação de idade, coleta e conservação de dados, utilização de perfis comportamentais e funcionalidades capazes de influenciar usuários vulneráveis.

A simples inclusão de uma declaração nos termos de uso não substitui medidas técnicas efetivas de proteção.

Estados Unidos: investigação sobre práticas comerciais e tratamento de dados

Em setembro de 2025, a Federal Trade Commission iniciou um levantamento sobre os riscos dos chatbots que atuam como companheiros virtuais.

A investigação setorial envolveu solicitações de informações a sete empresas, incluindo Alphabet, Meta, OpenAI e Character Technologies.

O órgão procurou compreender como essas organizações avaliam os efeitos potencialmente negativos dos sistemas, desenvolvem personagens, monetizam o engajamento e utilizam ou compartilham informações obtidas durante as conversas.

A iniciativa também examina os mecanismos empregados para limitar riscos envolvendo crianças e adolescentes e verificar o cumprimento das normas aplicáveis à proteção infantil.

O procedimento evidencia uma questão regulatória importante: os mecanismos comerciais dos companheiros virtuais precisam ser analisados em conjunto com suas funcionalidades emocionais.

Europa: proteção desde a concepção

A União Europeia também vem desenvolvendo medidas destinadas à proteção de menores em serviços digitais.

Em julho de 2025, a Comissão Europeia apresentou orientações relacionadas à segurança infantil no âmbito do Regulamento dos Serviços Digitais, o Digital Services Act.

As recomendações abordam mecanismos que estimulam comportamentos potencialmente compulsivos, exposição a conteúdos prejudiciais, contato indesejado e proteção da privacidade.

A Comissão também apresentou um protótipo de ferramenta de verificação de idade que procura permitir a comprovação da maioridade sem revelar desnecessariamente outras informações pessoais.

A iniciativa aborda um desafio comum às três regiões: proteger crianças sem criar mecanismos de fiscalização que ampliem indiscriminadamente a coleta de informações pessoais.

8. O que precisa mudar no desenvolvimento dos companheiros virtuais?

As evidências disponíveis indicam que a discussão não deve se limitar à definição de uma idade mínima para utilização dessas ferramentas.

Os mecanismos de proteção também precisam considerar as características específicas dos relacionamentos simulados por inteligência artificial.

Entre as medidas tecnicamente relevantes estão a avaliação dos riscos antes do lançamento, a limitação da coleta de informações, a adoção de configurações protetivas por padrão e a realização de testes específicos com cenários envolvendo usuários menores de idade.

Também merecem atenção os sistemas destinados a identificar interações potencialmente prejudiciais, a evitar respostas inadequadas e a incentivar a procura por apoio humano quando necessário.

É importante que essas funcionalidades não sejam apresentadas como garantias absolutas. Sistemas automatizados podem produzir respostas inesperadas, deixar de reconhecer determinadas situações de risco ou interpretar inadequadamente o contexto de uma conversa.

O mesmo cuidado deve ser aplicado à verificação de idade. Um sistema que exige documentos ou reconhecimento facial precisa demonstrar que o tratamento dessas informações é necessário, proporcional e adequadamente protegido.

Por fim, mecanismos de auditoria independente e transparência podem ajudar a avaliar se as medidas anunciadas pelas empresas realmente funcionam.

A responsabilidade pela segurança de um produto não deve depender exclusivamente da capacidade de seus usuários de reconhecer e evitar os riscos.

Conclusão: a infância está preparada para relacionamentos com inteligências artificiais?

As pesquisas brasileiras, americanas e europeias demonstram que a inteligência artificial já ocupa um espaço relevante na vida de crianças e adolescentes.

No Brasil, os dados comprovam que parte dos jovens utiliza essas ferramentas para conversar sobre emoções. Nos Estados Unidos, os levantamentos identificam um contingente expressivo de adolescentes que experimentou companheiros virtuais e, em determinados casos, recorreu a eles para conversas importantes. Na Europa, a expansão da inteligência artificial acontece em meio a preocupações significativas com a privacidade e a segurança digital.

Entretanto, esses resultados não permitem concluir que toda interação emocional com inteligência artificial seja prejudicial, tampouco comprovam que a utilização dessas ferramentas provoque necessariamente dependência emocional.

O que as pesquisas demonstram é a existência de um fenômeno social relevante, que exige acompanhamento científico e medidas de proteção proporcionais aos riscos identificados.

A questão mais importante talvez não seja determinar se as crianças estão preparadas para estabelecer vínculos com inteligências artificiais, mas verificar se essas tecnologias estão sendo desenvolvidas para respeitar as características, as vulnerabilidades e os direitos das pessoas que as utilizam.

Quando um sistema tecnológico é capaz de simular intimidade, identificar preferências e adaptar continuamente suas respostas, a proteção de dados deixa de envolver exclusivamente informações armazenadas.

Ela passa a incluir a maneira como a tecnologia pode utilizar o conhecimento adquirido sobre uma pessoa para influenciar seu comportamento.

É nesse ponto que a proteção de dados pessoais, a segurança infantil e a ética no desenvolvimento da inteligência artificial se encontram.

Fontes e pesquisas originais

As publicações abaixo permitem consultar os estudos, verificar as metodologias utilizadas e aprofundar os dados apresentados.

1. Brasil — Cetic.br: TIC Kids Online Brasil 2025. Pesquisa nacional sobre o uso da Internet e da inteligência artificial generativa por crianças e adolescentes.

2. Estados Unidos — Common Sense Media: Talk, Trust, and Trade-Offs: How and Why Teens Use AI Companions. Pesquisa sobre a utilização de companheiros virtuais e suas possíveis implicações sociais.

3. Estados Unidos — Common Sense Media: Teens, Trust, and Technology in the Age of AI. Levantamento sobre a confiança dos adolescentes nas empresas de tecnologia.

4. Europa — EU Kids Online: The EU Kids Online 2026 Comparative Study. Estudo comparativo sobre as experiências digitais de crianças em 19 países europeus.

5. Europa — London School of Economics: European Children’s Use and Understanding of Generative AI. Pesquisa específica sobre a utilização de inteligência artificial generativa na infância.

6. Brasil — Ministério da Justiça: Estudo sobre os riscos dos companheiros virtuais. Levantamento técnico sobre plataformas disponíveis no mercado brasileiro.

7. Estados Unidos — FTC: Investigação federal sobre companheiros virtuais de IA. Procedimento destinado a examinar segurança infantil, monetização e tratamento de informações pessoais.

8. Brasil — Legislação: Lei nº 15.211/2025 — Estatuto Digital da Criança e do Adolescente. Texto oficial da legislação brasileira.

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