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A popularização de smart glasses e outros dispositivos vestíveis equipados com câmeras, microfones e inteligência artificial está criando um problema regulatório inédito: pessoas podem ter voz, imagem, localização e características biométricas captadas continuamente sem sequer perceber que estão sendo observadas. Casos recentes envolvendo os Ray-Ban Meta e novas manifestações de autoridades europeias mostram que o debate deixou de ser futurista e passou a exigir respostas jurídicas concretas.

Imagine entrar em um restaurante, conversar com alguém e descobrir posteriormente que a pessoa sentada à mesa ao lado utilizava óculos capazes de captar áudio, vídeo e imagens continuamente.

Não havia um telefone apontado em sua direção.

Não havia uma câmera evidente.

Apenas óculos aparentemente convencionais.

Essa situação deixou de pertencer à ficção científica.

A rápida expansão dos chamados smart glasses, acompanhada da integração de câmeras, microfones, inteligência artificial e serviços em nuvem, está levando autoridades de proteção de dados a discutir uma nova fronteira da privacidade: a transformação de objetos cotidianos em sensores permanentes do ambiente ao redor do usuário.

Em outubro de 2026, dois acontecimentos colocaram definitivamente o tema no centro do debate internacional.

Primeiro, o European Data Protection Board — EDPB, órgão que reúne as autoridades de proteção de dados da União Europeia, publicou uma declaração específica sobre os riscos dos óculos inteligentes.

Poucos dias depois, usuários dos Ray-Ban Meta relataram que seus dispositivos estavam gravando conversas sem que o comando de ativação tivesse sido pronunciado.

A Meta confirmou a existência do problema e informou que ele havia sido corrigido.

Os dois episódios ilustram um mesmo problema:

quando câmeras, microfones e inteligência artificial passam a ser utilizados continuamente junto ao corpo humano, a privacidade deixa de depender apenas da intenção do usuário e passa também a depender do funcionamento do dispositivo, de seu software e da infraestrutura que processa os dados.

O alerta europeu sobre os smart glasses

Em 13 de outubro de 2026, o EDPB publicou a Statement 1/2026 on Smart Glasses, dedicada especificamente aos riscos de proteção de dados relacionados a esse tipo de equipamento.

Segundo o órgão europeu, esses dispositivos podem parecer óculos comuns, mas incorporam câmeras, microfones e conexão com a internet, permitindo que pessoas ao redor sejam registradas sem necessariamente saber que isso está acontecendo.

O risco aumenta em ambientes particularmente sensíveis, como:

  • hospitais;
  • escolas;
  • locais de trabalho;
  • residências;
  • tribunais;
  • ambientes envolvendo crianças.

O EDPB também chamou atenção para uma característica essencial desses equipamentos: sua discrição.

Ao contrário de um telefone celular levantado em direção a alguém, os óculos permanecem naturalmente posicionados no rosto do usuário.

A própria pessoa observada pode não conseguir determinar se o dispositivo está simplesmente sendo utilizado como óculos ou se está captando imagens, áudio ou informações do ambiente.

Por isso, a autoridade europeia defende que a indicação de gravação seja claramente perceptível.

Luzes, sinais sonoros, indicações por voz ou outras soluções devem tornar evidente para terceiros quando existe captação de informações.

Esses mecanismos também deveriam ser resistentes a tentativas de desativação ou ocultação.

O problema dos Ray-Ban Meta mostrou que nem sempre o usuário controla a gravação

Três dias após a publicação do documento europeu, surgiu um exemplo concreto do risco.

Usuários de Ray-Ban Meta relataram que os óculos passaram a registrar conversas mesmo quando o comando de ativação — normalmente “Hey Meta” — não havia sido pronunciado.

Segundo relatos analisados pela Ars Technica, registros de áudio e transcrições apareceram posteriormente no histórico do aplicativo Meta AI.

A Meta reconheceu o problema e informou que ele havia sido corrigido, além de destacar que usuários poderiam revisar e excluir seus registros de voz.

A empresa, entretanto, não informou publicamente quantos dispositivos haviam sido afetados nem explicou detalhadamente a origem do comportamento relatado.

O episódio apresenta uma questão importante.

Normalmente, discussões sobre gravação não autorizada partem da ideia de que alguém decidiu deliberadamente acionar uma câmera ou gravador.

Nos dispositivos inteligentes, aparece uma terceira possibilidade:

o próprio sistema pode iniciar a coleta sem que o usuário conscientemente determine isso.

Nesse cenário, tanto quem utiliza os óculos quanto quem está sendo registrado pode desconhecer completamente a coleta.

O dispositivo deixa de ser apenas uma câmera

Tratar smart glasses simplesmente como pequenas câmeras seria subestimar sua capacidade tecnológica.

Esses dispositivos podem reunir diferentes sensores e serviços:

câmera + microfone + inteligência artificial + localização + reconhecimento de objetos + serviços em nuvem + histórico de interação.

A combinação dessas tecnologias muda completamente a natureza do tratamento.

Uma câmera convencional registra uma imagem.

Um dispositivo conectado à inteligência artificial pode interpretar a imagem.

Ele pode identificar:

  • objetos;
  • placas;
  • textos;
  • produtos;
  • estabelecimentos;
  • pessoas;
  • ambientes;
  • expressões;
  • características visuais;
  • contexto da conversa.

Dependendo da tecnologia empregada, também pode existir reconhecimento facial ou associação da imagem captada com outras informações disponíveis.

Assim, a preocupação regulatória deixa de ser simplesmente:

“esta pessoa está sendo filmada?”

e passa a envolver questões muito mais complexas:

“o que o sistema consegue inferir sobre essa pessoa?”

A biometria torna o problema ainda mais sensível

No Brasil, a LGPD classifica determinados dados biométricos vinculados a uma pessoa natural como dados pessoais sensíveis.

A ANPD cita, entre os exemplos, informações relativas à:

  • face;
  • íris;
  • retina;
  • impressão digital;
  • voz;
  • maneira de andar.

Ou seja, imagem e voz não são necessariamente apenas registros audiovisuais.

Dependendo do tratamento realizado, podem ser transformadas em identificadores biométricos.

Existe uma diferença técnica fundamental.

Uma fotografia comum contém o rosto de uma pessoa.

Um sistema biométrico pode extrair dessa fotografia características matemáticas específicas do rosto e gerar um template biométrico.

Esse modelo pode posteriormente ser utilizado para comparar aquela pessoa com outras imagens.

O mesmo pode ocorrer com a voz.

Uma gravação contém uma conversa.

Mas determinados sistemas conseguem extrair características capazes de gerar uma assinatura vocal ou voiceprint.

Essa transformação altera radicalmente o risco.

Senhas podem ser trocadas. O rosto, não.

Existe uma característica que torna dados biométricos particularmente delicados.

Uma senha comprometida pode ser substituída.

Um cartão pode ser cancelado.

Uma conta pode receber novas credenciais.

Características corporais, entretanto, não são facilmente modificáveis.

Se um banco de dados contendo templates faciais ou impressões digitais for comprometido, não existe o equivalente a clicar em:

“alterar meu rosto”.

Esse caráter praticamente permanente explica por que a legislação de proteção de dados oferece tratamento reforçado à biometria.

Nos Estados Unidos, uma disputa bilionária envolvendo “faceprints”

Outra notícia publicada em outubro de 2026 demonstra como o problema biométrico está crescendo judicialmente.

A Apple enfrenta nos Estados Unidos uma ação coletiva relacionada ao sistema utilizado pelo aplicativo Photos para analisar rostos presentes em fotografias.

Os autores alegam que o sistema produz e armazena os chamados faceprints sem o consentimento exigido pela legislação de Illinois.

A discussão envolve a Biometric Information Privacy Act — BIPA, uma das leis estaduais de biometria mais rígidas dos Estados Unidos.

A Apple contesta as acusações e afirma, entre outros argumentos, que seu sistema não identifica pessoas da forma alegada pelos autores.

Em outubro de 2026, o processo avançou e deverá seguir para julgamento. Segundo a Reuters, aproximadamente oito milhões de residentes de Illinois podem estar abrangidos pela ação, cuja exposição financeira potencial é extremamente elevada dependendo do resultado e da caracterização das violações.

O caso demonstra que a discussão não depende necessariamente de câmeras públicas ou sistemas governamentais.

Uma funcionalidade aparentemente simples — organizar fotografias por rostos semelhantes — já pode gerar uma controvérsia jurídica relevante sobre tratamento biométrico.

Voz também virou dado biométrico de alto risco

Outra frente crescente nos Estados Unidos envolve voiceprints.

Empresas de inteligência artificial estão sendo processadas sob alegações de utilização de gravações de voz para desenvolvimento ou treinamento de sistemas sem consentimento adequado.

Entre as companhias mencionadas em litígios recentes estão grandes grupos tecnológicos.

A questão jurídica central novamente está relacionada à possibilidade de transformar gravações em características biométricas capazes de individualizar uma pessoa.

Isso cria uma diferença importante.

Uma gravação pode ser analisada apenas para transcrever palavras.

Mas também pode ser analisada para identificar quem está falando.

Quando ocorre essa segunda situação, o nível de risco muda substancialmente.

Estados Unidos já investigam especificamente os óculos da Meta

A preocupação não está restrita a ações judiciais privadas.

Em maio de 2026, o procurador-geral do Texas abriu investigação especificamente sobre os Meta AI Glasses.

Segundo o órgão, a investigação examina possíveis riscos relacionados a gravações, informações privadas e coleta de geometria facial.

Um dos pontos destacados foi a existência de funcionalidades capazes de processar continuamente dados de vídeo relacionados à utilização de inteligência artificial.

A investigação demonstra uma mudança importante.

Os smart glasses começam a ser avaliados não simplesmente como eletrônicos de consumo, mas como plataformas de coleta de dados ambientais.

Países e instituições começam a limitar seu uso

O crescimento dos dispositivos também começa a gerar restrições físicas.

Segundo levantamento da Reuters publicado em outubro, diferentes países e instituições estão avaliando ou adotando medidas relacionadas ao uso de smart glasses.

Entre os exemplos citados estão restrições em:

  • tribunais;
  • escolas;
  • ambientes governamentais;
  • determinados espaços privados.

A Noruega chegou a discutir restrições temporárias em áreas públicas, enquanto tribunais de Nova York adotaram proibições envolvendo óculos equipados com câmeras.

A lógica é semelhante à aplicada durante anos aos telefones celulares em locais sensíveis.

A diferença é que identificar um telefone utilizado para filmagem normalmente é simples.

Identificar óculos realizando processamento ou gravação pode ser muito mais difícil.

Até a Califórnia tentou criar regras específicas

Em 2026, legisladores da Califórnia aprovaram uma proposta destinada a estabelecer restrições específicas à utilização secreta de dispositivos vestíveis para gravação.

Entre as medidas previstas estava a exigência de indicadores visuais ou sonoros que demonstrassem quando dispositivos vestíveis estivessem registrando informações.

O governador Gavin Newsom vetou o projeto em outubro de 2026, argumentando, entre outras razões, que a definição utilizada era excessivamente ampla e que o Estado já possuía normas relacionadas a gravações não autorizadas em determinados ambientes privados.

Mesmo não tendo se tornado lei, a proposta demonstra que legisladores começam a considerar insuficiente a aplicação de regras criadas para câmeras e gravadores convencionais.

União Europeia: proteção de dados e inteligência artificial começam a se encontrar

Na Europa, o cenário é ainda mais complexo porque existem duas grandes estruturas regulatórias atuando simultaneamente:

GDPR + AI Act.

O GDPR disciplina o tratamento de dados pessoais, incluindo dados biométricos.

O AI Act, por sua vez, introduz restrições adicionais relacionadas a determinados usos de sistemas de inteligência artificial.

Uma das áreas mais sensíveis envolve a identificação biométrica remota em tempo real em espaços acessíveis ao público.

Para fins policiais, o regulamento europeu estabelece uma regra altamente restritiva, permitindo esse tipo de utilização apenas em situações especificamente delimitadas e sujeitas a salvaguardas.

Entre as hipóteses previstas estão determinadas buscas por vítimas, prevenção de ameaças graves e identificação ou localização de suspeitos de determinadas infrações.

Mesmo nesses casos, o regime europeu exige condições de necessidade e proporcionalidade, limitações temporais, territoriais e pessoais e, como regra, autorização prévia judicial ou de autoridade independente.

Isso demonstra como a biometria passou a ser tratada na Europa como tecnologia capaz de afetar não apenas privacidade, mas também liberdade de circulação, reunião e manifestação.

Brasil: a LGPD já protege biometria, mas a regulamentação ainda evolui

No Brasil, dados biométricos vinculados a uma pessoa são classificados pelo artigo 5º da LGPD como dados pessoais sensíveis.

Isso significa que seu tratamento está sujeito às hipóteses mais restritas previstas pela legislação.

A ANPD já reconhece que o tema exige regulamentação específica.

A atual Agenda Regulatória da Agência mantém dados biométricos entre os assuntos em desenvolvimento.

Segundo a própria ANPD, a utilização de reconhecimento facial vem crescendo em ambientes como:

  • escolas;
  • controle de fronteiras;
  • estádios;
  • transações financeiras.

A Agência também chama atenção para riscos relacionados a erros tecnológicos e possíveis efeitos discriminatórios, particularmente sobre grupos vulneráveis.

Reconhecimento facial nas escolas brasileiras já está sob fiscalização

Em 2026, a ANPD também examinou especificamente o tratamento de dados biométricos de crianças e adolescentes pela Secretaria de Educação do Paraná mediante tecnologia de reconhecimento facial.

O episódio gerou a Nota Técnica nº 4/2026/CPDP/CGF/SFI/ANPD.

A existência desse processo demonstra que reconhecimento facial não é uma discussão abstrata no Brasil.

Sistemas biométricos já são empregados por instituições públicas e privadas, e a Agência começa a construir parâmetros concretos para sua utilização.

Brasil, União Europeia e Estados Unidos

QuestãoBrasilUnião EuropeiaEstados Unidos
Lei geral de proteção de dadosLGPDGDPRNão há uma única lei federal geral
Biometria recebe proteção especialSimSimDepende do Estado e da legislação setorial
Reconhecimento facialPermitido mediante requisitos legaisFortemente reguladoRegulação fragmentada
Identificação biométrica policial em tempo realSem regime nacional equivalente ao AI Act europeuSeveramente limitada pelo AI ActDepende da jurisdição
Smart glassesSem legislação específica abrangenteEDPB publicou orientação específica em 2026Alguns Estados investigam ou tentam regulamentar
VoiceprintsPodem constituir dado biométrico sensívelProteção reforçadaProtegidos em algumas leis estaduais
FiscalizaçãoEm expansão pela ANPDEstrutura consolidadaFTC + procuradores estaduais + ações privadas
Ações privadas sobre biometriaRegime distinto do norte-americanoVaria conforme legislação nacionalMuito relevantes, especialmente sob a BIPA

O maior problema pode ser quem não está usando o dispositivo

Existe uma diferença fundamental entre smartphones e dispositivos vestíveis.

Quando alguém utiliza um aplicativo no telefone, normalmente a pessoa que decidiu utilizá-lo também é a principal titular dos dados coletados.

Nos smart glasses isso muda.

Grande parte das informações registradas pode pertencer a terceiros que nunca compraram, configuraram ou aceitaram os termos de uso do aparelho.

A pessoa que passa diante dos óculos pode ter:

  • rosto registrado;
  • voz captada;
  • localização identificada;
  • conversa transcrita;
  • comportamento interpretado;
  • características físicas analisadas.

E pode desconhecer completamente que esse tratamento ocorreu.

O titular dos dados deixa de ser necessariamente o usuário do equipamento.

Passa a ser qualquer pessoa que entre no campo sensorial do dispositivo.

A inteligência artificial elimina uma antiga barreira: analisar tudo

Historicamente, gravar milhares de horas de vídeo apresentava uma dificuldade prática.

Alguém precisaria assistir ao material.

Essa limitação está desaparecendo.

Modelos de inteligência artificial conseguem:

  • transcrever áudio;
  • reconhecer objetos;
  • resumir conversas;
  • pesquisar imagens;
  • identificar padrões;
  • indexar eventos;
  • localizar determinados rostos ou características.

Isso significa que uma quantidade gigantesca de gravações pode se tornar pesquisável.

A diferença entre:

“há uma gravação daquela pessoa em algum lugar”

e

“mostre todas as vezes em que aquela pessoa apareceu”

é tecnologicamente gigantesca.

É justamente a IA que começa a eliminar essa diferença.

Para segurança pública, a tecnologia cria oportunidades e riscos

Na atividade policial, tecnologias vestíveis possuem aplicações legítimas importantes.

Bodycams já demonstraram sua utilidade para:

  • documentação de ocorrências;
  • preservação de evidências;
  • transparência da atuação policial;
  • proteção do próprio agente;
  • reconstrução cronológica de eventos.

Óculos inteligentes poderão futuramente desempenhar funções semelhantes e até oferecer recursos adicionais.

Por exemplo:

gravação em primeira pessoa → transcrição automática → reconhecimento de placas → tradução → consulta de informações → apoio contextual.

Mas existe uma distinção jurídica essencial entre uma bodycam institucional, submetida a protocolos de utilização, cadeia de custódia, política de retenção e controle administrativo, e um dispositivo comercial conectado a servidores privados.

Em investigações, essa diferença é particularmente importante.

Uma gravação produzida pelo dispositivo pode envolver simultaneamente:

  1. prova audiovisual;
  2. dados pessoais;
  3. dados pessoais sensíveis;
  4. metadados;
  5. localização;
  6. registros armazenados em nuvem;
  7. processamento por inteligência artificial;
  8. terceiros presentes no ambiente.

Consequentemente, questões relacionadas à autenticidade, integridade, origem, armazenamento e cadeia de custódia tornam-se ainda mais relevantes.

O próprio conceito de “gravar” está mudando

Existe ainda uma questão tecnológica que deve ganhar importância.

Um dispositivo pode analisar continuamente câmera e microfone sem necessariamente salvar permanentemente tudo o que recebe.

Em computação, é possível manter dados temporariamente em memória ou em um buffer, utilizando-os para análise imediata e descartando-os posteriormente.

Isso cria uma distinção complexa:

captar não é necessariamente gravar.

Mas captar e processar ainda pode configurar tratamento de dados pessoais.

Um smart glass poderia, por exemplo, observar continuamente o ambiente para identificar quando o usuário está falando com a inteligência artificial.

Mesmo que o vídeo não seja armazenado permanentemente, houve processamento.

Para a legislação de proteção de dados, essa diferença técnica é fundamental.

O LED pode não ser suficiente

Grande parte dos fabricantes utiliza pequenas luzes indicadoras para demonstrar quando o dispositivo está registrando imagens.

Mas o EDPB questiona implicitamente a suficiência dessa solução ao defender indicadores perceptíveis e resistentes à manipulação.

Uma pequena luz pode apresentar vários problemas:

  • terceiros podem não conhecê-la;
  • pode ser difícil observá-la à distância;
  • pode ser confundida com outro indicador;
  • pode eventualmente ser coberta;
  • pode não indicar todos os tipos de processamento existentes.

Por isso, uma das tendências regulatórias deverá ser exigir privacy by design também no próprio hardware.

O equipamento precisa tornar sua operação compreensível não apenas para seu proprietário, mas também para quem está ao redor.

A próxima geração será ainda menos perceptível

Os dispositivos atuais ainda possuem limitações claras de bateria, processamento e conectividade.

Essas barreiras provavelmente diminuirão.

A tendência tecnológica aponta para equipamentos:

menores + mais autônomos + mais conectados + mais discretos + mais inteligentes.

O desafio de privacidade, portanto, tende a aumentar.

Uma câmera de segurança é visível.

Um celular utilizado para filmar costuma ser perceptível.

Óculos, fones, broches, relógios e outros dispositivos vestíveis podem praticamente desaparecer no cotidiano.

É justamente essa invisibilidade que está levando autoridades a agir.

A fronteira deixa de ser “meus dados” e passa a ser “meu ambiente”

Durante os primeiros anos da internet, grande parte da discussão sobre privacidade envolvia os dados que uma pessoa conscientemente entregava a um serviço.

Nome.

E-mail.

CPF.

Telefone.

Depois, a discussão passou para dados coletados silenciosamente:

cookies, localização, identificadores e histórico de navegação.

Os dispositivos vestíveis inauguram uma terceira etapa.

Agora não são apenas os dados do usuário que entram no sistema.

É todo o ambiente ao redor dele.

Conversas.

Rostos.

Vozes.

Placas.

Documentos.

Telas de computadores.

Residências.

Crianças.

Colegas de trabalho.

Pessoas que sequer sabem que existe um dispositivo inteligente naquele local.

Essa mudança explica por que autoridades internacionais começaram a tratar smart glasses não simplesmente como novos gadgets, mas como uma possível infraestrutura distribuída de sensoriamento humano.

O desafio regulatório dos próximos anos será estabelecer onde termina a conveniência de ter inteligência artificial permanentemente diante dos olhos e onde começa o direito das demais pessoas de não serem permanentemente observadas, analisadas e transformadas em dados.

Fontes

European Data Protection Board — Statement 1/2026 on Smart Glasses, 13/10/2026:
https://www.edpb.europa.eu/documents/statement/statement-of-the-edpb-on-smart-glasses_en

EDPB — Data protection challenges of smart glasses:
https://www.edpb.europa.eu/news/edpb-publishes-statement-on-the-data-protection-challenges-of-smart-glasses_en

Ars Technica — Ray-Ban Meta smart glasses gravando áudio sem ativação, 16/10/2026:
https://arstechnica.com/gadgets/2026/10/ray-ban-meta-smart-glasses-found-recording-audio-without-wearers-consent/

Reuters — países avaliam restrições a smart glasses:
https://www.reuters.com/world/asia-pacific/countries-weigh-banning-smart-glasses-over-privacy-concerns-2026-10-06/

Texas Attorney General — investigação sobre Meta Glasses:
https://www.texasattorneygeneral.gov/news/releases/attorney-general-ken-paxton-launches-investigation-meta-glasses-protect-texans-privacy-unlawful

Reuters — Apple e reconhecimento facial sob a BIPA, 16/10/2026:
https://www.reuters.com/legal/government/apple-faceprints-case-tests-reach-biometric-privacy-law-2026-10-16/

ANPD — Agenda Regulatória: dados biométricos:
https://www.gov.br/anpd/pt-br/assuntos/regulacao/agenda-regulatoria-1

ANPD — documentos técnicos e fiscalização de biometria:
https://www.gov.br/anpd/pt-br/centrais-de-conteudo/documentos-tecnicos-orientativos

União Europeia — AI Act, Regulamento (UE) 2024/1689:
https://eur-lex.europa.eu/legal-content/PT/TXT/?uri=CELEX:32024R1689

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