Crime
Estudo da Chainalysis revela crescimento de 162% nas transações ilícitas em 2025, avanço dos golpes com inteligência artificial e expansão de redes internacionais de lavagem de dinheiro. A pesquisa também demonstra como a tecnologia blockchain pode se transformar em uma ferramenta estratégica para investigações policiais.
O crime organizado está passando por uma transformação tecnológica. Organizações criminosas que anteriormente dependiam de sistemas bancários tradicionais e mecanismos informais de transferência de dinheiro agora utilizam criptomoedas, plataformas digitais e serviços financeiros especializados para movimentar bilhões de dólares internacionalmente.
Essa é uma das principais conclusões do relatório The 2026 Crypto Crime Report, publicado pela empresa de inteligência blockchain Chainalysis. O estudo apresenta um panorama da utilização de ativos digitais em atividades criminosas, incluindo estelionato, lavagem de dinheiro, tráfico de pessoas, narcotráfico, ataques cibernéticos e operações financeiras associadas a entidades submetidas a sanções internacionais.
De acordo com o levantamento, endereços de criptomoedas identificados como ilícitos receberam pelo menos US$ 154 bilhões em 2025, representando um aumento de 162% em comparação com o ano anterior.
O crescimento expressivo foi impulsionado principalmente pelo aumento das movimentações relacionadas a entidades sancionadas. Entretanto, o relatório também identificou expansão em praticamente todas as principais categorias de criminalidade analisadas.
Um aspecto importante é que esses números representam estimativas mínimas. Como novas carteiras criminosas continuam sendo identificadas, os valores históricos podem aumentar conforme as investigações avançam.
Apesar disso, a Chainalysis ressalta que as transações ilícitas representam menos de 1% do volume total de movimentações atribuídas no ecossistema de criptomoedas analisado.
Um dos fenômenos identificados pelo estudo é a profissionalização das estruturas criminosas.
As organizações passaram a utilizar redes especializadas que oferecem serviços financeiros, infraestrutura tecnológica e mecanismos de lavagem de dinheiro. Em alguns casos, essas estruturas funcionam como verdadeiras empresas clandestinas, com divisão de tarefas, fornecedores, intermediários e plataformas de atendimento.
O relatório dedica especial atenção às redes de lavagem de dinheiro que operam predominantemente em língua chinesa, denominadas Chinese Money Laundering Networks (CMLNs).
Essas organizações movimentaram aproximadamente US$ 16,1 bilhões em 2025 e foram responsáveis por cerca de 20% das operações de lavagem ilícita identificadas em blockchain.
Seus serviços incluem a utilização de contas bancárias de terceiros, transferências entre carteiras digitais, corretoras informais, plataformas de apostas e mecanismos automatizados de movimentação financeira.
Um dos dados mais relevantes é a velocidade operacional dessas estruturas. Determinados serviços conseguiram processar transações de valores elevados em aproximadamente 1,6 minuto, demonstrando a importância da automação para a movimentação de recursos ilícitos.
Essa agilidade representa um desafio para as autoridades responsáveis pelo rastreamento financeiro e pela recuperação de ativos.
Outro ponto de destaque é o crescimento dos golpes envolvendo criptomoedas.
Segundo a Chainalysis, os criminosos receberam pelo menos US$ 14 bilhões em 2025 por meio de fraudes identificadas. Considerando a descoberta progressiva de novas carteiras associadas a essas operações, a empresa projetou que o montante poderia superar US$ 17 bilhões.
Os golpes baseados na utilização de falsas identidades apresentaram crescimento superior a 1.400% em comparação com 2024.
Nessa modalidade, os criminosos se apresentam como representantes de instituições financeiras, órgãos governamentais ou plataformas de negociação de criptomoedas. Utilizando engenharia social, convencem as vítimas a realizar transferências para carteiras sob seu controle.
O desenvolvimento de ferramentas de inteligência artificial acrescenta uma nova dimensão ao problema. A tecnologia permite automatizar interações, produzir conteúdos fraudulentos e aperfeiçoar estratégias destinadas a conquistar a confiança das vítimas.
Além disso, o relatório identifica a convergência entre diferentes modalidades de fraude. Golpes de relacionamento, falsas oportunidades de investimento e ataques de phishing frequentemente integram uma mesma estrutura criminosa.
Isso demonstra que as classificações tradicionais dos crimes digitais nem sempre refletem a complexidade das operações contemporâneas.
O estudo também aponta uma mudança significativa na preferência dos criminosos pelos diferentes tipos de ativos digitais.
As chamadas stablecoins, criptomoedas projetadas para manter seu valor relativamente estável, passaram a representar aproximadamente 84% do volume de transações ilícitas identificado pela Chainalysis.
Essa preferência acompanha uma tendência observada no próprio mercado legítimo de criptomoedas.
A facilidade das transferências internacionais, a possibilidade de movimentação contínua e a menor volatilidade tornam esses ativos especialmente utilizados em operações financeiras transfronteiriças.
Entretanto, a utilização de stablecoins não significa necessariamente anonimato.
Diversas dessas moedas funcionam em blockchains públicas, nas quais as operações permanecem registradas e podem ser examinadas por ferramentas especializadas.
Essa característica cria oportunidades importantes para o trabalho investigativo.
O relatório também chama a atenção para a crescente conexão entre atividades financeiras realizadas em blockchain e crimes praticados no mundo físico.
Organizações envolvidas com tráfico de pessoas passaram a utilizar ativos digitais para receber pagamentos e movimentar recursos provenientes de atividades ilícitas.
Entre os exemplos analisados estão estruturas criminosas que exploram pessoas submetidas ao trabalho forçado em centros de fraudes digitais.
O documento também identifica episódios de violência física nos quais criminosos utilizam ameaças ou agressões para obrigar vítimas a transferir seus ativos digitais.
Esses acontecimentos demonstram que a criminalidade envolvendo criptomoedas não está restrita ao ambiente virtual.
As movimentações financeiras digitais frequentemente representam apenas uma das etapas de organizações que também praticam crimes tradicionais.
Outro aspecto abordado pelo levantamento é a utilização crescente de criptomoedas por organizações associadas a determinados Estados.
Segundo a Chainalysis, operações atribuídas a hackers vinculados à Coreia do Norte foram responsáveis pelo furto de aproximadamente US$ 2 bilhões em criptomoedas durante 2025.
Entre os episódios mais expressivos está o ataque à plataforma Bybit, ocorrido em fevereiro daquele ano, que resultou na subtração de quase US$ 1,5 bilhão em ativos digitais.
O relatório também examina operações relacionadas à evasão de sanções econômicas internacionais.
Nesse contexto, destaca movimentações realizadas por meio de estruturas financeiras associadas à Rússia e pelo uso de ativos digitais por redes relacionadas ao Irã.
Esses acontecimentos revelam uma convergência entre organizações criminosas tradicionais, grupos especializados em crimes cibernéticos e estruturas financeiras utilizadas em conflitos geopolíticos.
Embora os dados apresentem um cenário de expansão da criminalidade financeira, o relatório destaca uma característica importante das criptomoedas: a possibilidade de rastreamento das transações.
Diferentemente de diversas modalidades tradicionais de movimentação financeira, as operações realizadas em blockchains públicas deixam registros permanentes que podem ser analisados posteriormente.
Esses registros permitem identificar padrões de movimentação, examinar conexões entre carteiras e acompanhar o deslocamento dos recursos ao longo de diferentes plataformas.
Para os órgãos responsáveis pela investigação criminal, essa característica representa uma oportunidade.
O cruzamento entre informações financeiras, dados obtidos durante investigações, inteligência de fontes abertas e análises especializadas pode contribuir para identificar integrantes de organizações criminosas e reconstruir seus mecanismos operacionais.
Entretanto, existe uma distinção fundamental: identificar uma carteira digital não significa, automaticamente, descobrir a identidade de seu proprietário.
Para estabelecer vínculos entre uma movimentação financeira e determinada pessoa, é necessário associar os registros da blockchain a outros elementos de investigação.
Além disso, ferramentas de análise podem apontar conexões financeiras, mas suas conclusões precisam ser interpretadas conforme as circunstâncias de cada caso.
O relatório evidencia que a evolução das organizações criminosas exige uma transformação correspondente nas estratégias de investigação.
A simples identificação de plataformas utilizadas para movimentar recursos ilícitos pode ser insuficiente. Quando determinado serviço é interrompido, seus operadores frequentemente migram para outras estruturas, preservando parte significativa de suas atividades.
Por esse motivo, a Chainalysis destaca a importância de investigações direcionadas às redes criminosas e aos indivíduos responsáveis por sua operação.
Nesse cenário, três capacidades assumem especial relevância: o rastreamento de transações em blockchain, a integração entre informações financeiras e evidências digitais e a cooperação entre autoridades de diferentes países e empresas especializadas.
A análise conjunta desses elementos permite compreender não apenas o destino dos valores movimentados, mas também a estrutura operacional das organizações envolvidas.
O relatório da Chainalysis revela uma mudança importante no funcionamento da criminalidade contemporânea. Criptomoedas passaram a integrar estruturas criminosas complexas, conectando fraudes digitais, lavagem de dinheiro, tráfico de pessoas, ataques cibernéticos e operações transnacionais.
Ao mesmo tempo, a transparência das blockchains públicas oferece possibilidades de investigação que não estão disponíveis da mesma maneira em diversos sistemas financeiros tradicionais.
A expansão dessas tecnologias exige que as instituições responsáveis pela segurança pública desenvolvam conhecimentos específicos sobre ativos digitais, rastreamento financeiro e análise de evidências eletrônicas.
O desafio não está apenas em acompanhar a evolução tecnológica utilizada pelos criminosos, mas também em aproveitar os recursos dessa mesma tecnologia para identificar organizações, reunir elementos probatórios e contribuir para a recuperação de ativos.
Na economia digital, seguir o dinheiro continua sendo uma estratégia fundamental de investigação. A diferença é que, agora, parte desse caminho está permanentemente registrada na blockchain.
Fonte: Chainalysis – The 2026 Crypto Crime Report.
Os dados apresentados referem-se predominantemente a 2025 e estão sujeitos às revisões metodológicas e atualizações indicadas pela empresa.
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