Binance
A Binance informou que assumirá integralmente as perdas decorrentes do ataque cibernético que atingiu sua infraestrutura global em 29 de outubro de 2026 e resultou na retirada não autorizada de aproximadamente US$ 6,3 bilhões em criptoativos.
Para os clientes brasileiros, a BBrasil SPSAV Ltda., entidade responsável pela operação local, afirmou que os ativos permanecem protegidos e que os recursos dos usuários são mantidos segregados e, em grande parte, armazenados em cold wallets, ou carteiras frias. A empresa informou ainda que eventuais impactos serão cobertos pelo fundo de proteção SAFU e por recursos próprios.
O episódio, entretanto, vai muito além de um simples comprometimento de carteira. Evidências técnicas levantadas até agora indicam que os invasores podem ter conseguido atingir uma das camadas mais sensíveis da arquitetura de uma corretora de criptomoedas: a infraestrutura responsável por autorizar e assinar transações de carteiras quentes.
A investigação ainda está em andamento e a própria Binance informou que publicará um relatório técnico definitivo — o chamado post-mortem — após a conclusão da apuração. Portanto, parte da reconstrução técnica abaixo é baseada em dados públicos da blockchain e em análises independentes, especialmente da empresa de inteligência blockchain TRM Labs.
Segundo a Binance, mais de US$ 6,34 bilhões foram separados para recompor os ativos afetados pelo incidente. Desse montante, aproximadamente US$ 5 bilhões já estavam disponíveis nos mesmos criptoativos retirados durante o ataque.
Em 31 de outubro de 2026, a companhia informou que cerca de 90% dos ativos afetados já haviam sido repostos, incluindo integralmente BTC, ETH, USDT, BNB, SOL, USDC, XRP, USD1, RLUSD e ZEC. Posteriormente, a Binance afirmou ter elevado esse percentual para aproximadamente 95%.
A empresa também anunciou uma atualização de sua Prova de Reservas, mecanismo destinado a permitir que usuários verifiquem criptograficamente a existência dos ativos mantidos pela corretora.
Além da reposição das reservas, a Binance trabalha com autoridades, emissores de stablecoins e empresas especializadas em inteligência blockchain para tentar impedir a movimentação dos ativos roubados.
Cerca de US$ 3 bilhões chegaram a ser congelados on-chain, segundo a empresa.
Os dados disponíveis até o momento apontam para um ataque cuidadosamente preparado e executado em diversas blockchains praticamente de forma simultânea.
A Binance informou inicialmente que o incidente poderia ter começado com o comprometimento do laptop de um engenheiro de DevOps. A invasão teria permitido acesso a um service container, a partir do qual foram enviadas solicitações fraudulentas de saque.
A empresa afirma, entretanto, que não encontrou evidências de vazamento das chaves privadas das carteiras.
Essa distinção é extremamente importante.
Em vez de roubar diretamente uma chave privada, tudo indica que os atacantes podem ter conseguido controlar o sistema que tinha autoridade para solicitar ou gerar assinaturas válidas.
Na prática, é como comprometer o sistema que manda o cofre abrir, em vez de roubar fisicamente a chave do cofre.
Sistemas de DevOps possuem uma posição particularmente sensível em grandes infraestruturas digitais.
Eles normalmente administram componentes como:
Segundo a investigação preliminar da Binance, um computador utilizado por um engenheiro de DevOps foi comprometido.
A partir desse endpoint, o invasor teria conseguido alcançar um container utilizado por serviços internos responsáveis pelo processamento de transações.
A Binance posteriormente afirmou ter identificado outros pontos de comprometimento, indicando que o ataque foi mais complexo do que simplesmente assumir as credenciais de um único funcionário.
Análises realizadas pela TRM Labs revelaram um elemento particularmente preocupante.
Durante aproximadamente meia hora, carteiras da Binance em diferentes blockchains começaram a produzir transações criptograficamente válidas transferindo bilhões de dólares para endereços controlados pelo atacante.
Entre as redes atingidas estavam:
Ethereum, Bitcoin, Tron, Solana, XRP Ledger, Arbitrum, Avalanche, Optimism, Base e Polygon.
O problema é que essas redes utilizam mecanismos, formatos e esquemas criptográficos diferentes.
Por isso, a hipótese de comprometimento isolado de apenas uma carteira não explica adequadamente o ocorrido.
A TRM considera mais provável que os invasores tenham conseguido algum nível de acesso à infraestrutura central utilizada pela Binance para autorizar transações de hot wallets em múltiplas blockchains.
Isso significaria que o invasor não necessariamente precisaria conhecer ou extrair as chaves privadas.
Bastaria conseguir convencer — ou comandar — o sistema legítimo de assinatura a assinar transações preparadas pelo atacante.
Um dos aspectos mais sofisticados do incidente ocorreu na Ethereum.
Os invasores utilizaram um recurso conhecido como EIP-7702, introduzido com a atualização Pectra da rede Ethereum.
A EIP-7702 permite que uma conta Ethereum tradicional delegue temporariamente seu comportamento para um contrato inteligente.
Em termos simplificados:
uma carteira normal pode assinar uma autorização dizendo:
“A partir deste momento, determinadas operações desta conta poderão ser executadas segundo as regras deste contrato.”
O recurso é legítimo e foi projetado para permitir funcionalidades avançadas semelhantes às chamadas smart accounts.
No ataque, entretanto, ele teria sido utilizado como mecanismo de execução.
A análise da TRM identificou uma transação contendo 50 autorizações EIP-7702 previamente assinadas pela hot wallet da Binance.
Todas apontavam para um contrato controlado pelo atacante.
Cada transação Ethereum possui um número sequencial chamado nonce.
Se uma carteira realizou 100 transações, por exemplo, a próxima normalmente utilizará o nonce 100.
O problema para um atacante é que uma hot wallet de uma corretora como a Binance realiza transações constantemente.
O nonce muda o tempo todo.
Uma autorização previamente preparada poderia, portanto, deixar de funcionar rapidamente.
Os atacantes encontraram uma solução.
Prepararam autorizações correspondentes a 50 nonces consecutivos.
Assim, mesmo que a carteira continuasse processando operações legítimas, havia grande probabilidade de que uma das autorizações coincidisse com o nonce válido quando fosse finalmente enviada à blockchain.
Uma delas funcionou.
Esse detalhe também sugere preparação prévia e algum acesso ao mecanismo legítimo de assinatura.
Quando uma das autorizações foi aceita, a hot wallet Ethereum passou a delegar seu comportamento a um contrato controlado pelos atacantes.
O contrato funcionava como um sweeper — um mecanismo capaz de retirar automaticamente os fundos da carteira.
Apenas 3 minutos e 24 segundos após a delegação, os invasores executaram uma operação que transferiu aproximadamente:
167.464 ETH, além de outros 63 tokens, incluindo cerca de 1,615 bilhão de USDT.
O ataque não terminou ali.
A delegação permaneceu ativa.
Quando novos fundos chegavam à carteira comprometida, os criminosos podiam simplesmente retirá-los novamente.
A TRM identificou novas operações de drenagem realizadas posteriormente.
O mesmo mecanismo também permitiu alcançar outra conta inteligente da Binance e movimentar aproximadamente US$ 823 milhões em USDC.
É importante destacar que, até o momento, não existe evidência de falha criptográfica na EIP-7702.
O protocolo aparentemente funcionou exatamente como projetado.
O problema central é outro:
como os criminosos conseguiram obter autorizações válidas assinadas pela Binance?
Essa é provavelmente uma das perguntas mais importantes da investigação.
Os dados disponíveis sugerem que o atacante pode ter conseguido acesso temporário ou indireto ao mecanismo de assinatura utilizado pela exchange.
A presença de 50 autorizações previamente assinadas reforça essa hipótese.
Enquanto a carteira Ethereum era transformada em um sweeper, outras carteiras começaram a enviar recursos diretamente para endereços do atacante.
Segundo a TRM Labs, os primeiros movimentos começaram no XRP Ledger.
Entre aproximadamente 20h05 e 20h09 UTC de 29 de outubro, cinco carteiras relacionadas à Binance transferiram cerca de 233 milhões de XRP para um endereço controlado pelos criminosos.
Em seguida ocorreram transferências em Solana e Optimism.
Por volta das 20h20 UTC, uma hot wallet Bitcoin transferiu aproximadamente 18.270 BTC.
Logo depois, carteiras Tron movimentaram aproximadamente 612 milhões de USDT, além de TRX.
Também foram observadas transferências em Arbitrum, Base, Avalanche e Polygon.
Em grande parte dessas redes, não houve necessidade de usar mecanismos semelhantes ao EIP-7702.
As transações simplesmente apareceram com assinaturas válidas da própria infraestrutura da Binance.
Isso reforça a hipótese de comprometimento de algum componente de autorização ou assinatura localizado acima das próprias blockchains.
A análise on-chain mostra que a operação não parece ter sido improvisada.
Segundo a TRM Labs, aproximadamente 36 horas antes do ataque, uma carteira operacional utilizada pelos criminosos começou a receber pequenos valores provenientes do Tornado Cash.
O Tornado Cash é um protocolo que dificulta a análise da origem dos ativos ao misturar transações.
Os atacantes posteriormente desenvolveram e testaram o código que seria utilizado na operação.
Antes de atacar a Binance, o mecanismo teria sido experimentado em carteiras controladas pelos próprios criminosos.
Horas depois desses testes, o mesmo código foi utilizado contra a infraestrutura da exchange.
Essa sequência sugere planejamento, preparação operacional e testes prévios.
Um dos fatores que tornou o ataque particularmente devastador foi a velocidade.
Segundo investigações independentes, a maior parte dos aproximadamente US$ 6,3 bilhões foi movimentada em uma janela de aproximadamente 20 minutos.
Essa característica é importante em incidentes envolvendo criptomoedas.
Depois que uma transação é registrada e confirmada na blockchain, normalmente não existe uma instituição central capaz de revertê-la.
A resposta depende, portanto, de mecanismos externos:
congelamento por emissores de stablecoins, bloqueio por exchanges, identificação de endereços, rastreamento de blockchain e cooperação internacional.
Um dos poucos mecanismos capazes de interromper rapidamente um ataque dessa dimensão ocorre com stablecoins centralizadas.
Empresas responsáveis por ativos como USDT e USDC possuem mecanismos administrativos capazes de impedir a movimentação de determinados tokens.
Após o incidente, emissores e parceiros de blockchain começaram a bloquear endereços relacionados aos criminosos.
A TRM estima que aproximadamente US$ 2,7 bilhões tenham sido congelados por diferentes entidades. A Binance posteriormente informou que o total bloqueado alcançou aproximadamente US$ 3 bilhões.
Bitcoin e Ether apresentam uma situação diferente.
Não existe uma entidade central capaz de simplesmente congelar BTC ou ETH em um determinado endereço.
Uma vez transferidos, esses ativos podem continuar sendo movimentados livremente, embora permaneçam rastreáveis publicamente pela blockchain.
Os atacantes também começaram rapidamente a reorganizar os fundos.
Os bitcoins roubados, por exemplo, foram divididos em blocos menores.
Esse método é conhecido como peel chain.
Em vez de movimentar um único endereço contendo milhares de bitcoins, os criminosos fragmentam progressivamente os ativos entre diferentes endereços.
O objetivo é aumentar a complexidade da análise forense.
Apesar disso, todas as transações permanecem registradas na blockchain, permitindo que empresas especializadas continuem acompanhando os fluxos financeiros.
A TRM Labs atribuiu o ataque, com alto grau de confiança, ao grupo TraderTraitor, associado à Coreia do Norte.
A empresa identificou características semelhantes a operações anteriores, incluindo preparação antecipada, utilização do Tornado Cash e obtenção prévia de autorizações criptográficas.
O mesmo grupo já havia sido associado pelo FBI a outros grandes roubos de criptomoedas.
A Binance, contudo, ainda não confirmou oficialmente a autoria do ataque.
Portanto, a atribuição deve ser tratada como conclusão de inteligência de terceiros enquanto a investigação oficial permanece aberta.
Independentemente da identidade dos autores, o incidente expõe uma questão arquitetural importante.
Em uma infraestrutura financeira que movimenta bilhões de dólares, comprometer um endpoint de funcionário não deveria, isoladamente, permitir que um invasor comandasse transferências dessa magnitude.
Arquiteturas maduras de custódia normalmente empregam diversas camadas de proteção:
O fato de carteiras de múltiplas blockchains terem produzido transações válidas praticamente simultaneamente sugere que a investigação precisará determinar se houve falha em uma ou várias dessas camadas.
Durante muitos anos, a segurança de criptomoedas foi resumida à máxima:
“proteja a chave privada.”
O ataque à Binance demonstra que a realidade é consideravelmente mais complexa.
Em grandes plataformas, as chaves podem estar protegidas em HSMs ou sistemas criptográficos altamente seguros e, ainda assim, um atacante conseguir movimentar recursos.
Isso ocorre porque alguém — ou algum sistema — precisa enviar instruções para que essas chaves assinem transações.
Assim, o verdadeiro perímetro de segurança passa a incluir:
endpoint → credenciais → infraestrutura DevOps → containers → APIs internas → mecanismos de autorização → sistema de assinatura → blockchain.
Se um invasor obtiver controle suficiente sobre essa cadeia, poderá eventualmente fazer a própria infraestrutura legítima produzir uma transação criptograficamente perfeita.
Para a blockchain, não existe diferença.
A assinatura é válida.
A Binance ainda não publicou o relatório técnico definitivo sobre o incidente.
Entre os principais pontos que permanecem sem resposta estão:
A resposta a essas questões será fundamental para compreender se o incidente decorreu de falha de endpoint, comprometimento de credenciais, escalada de privilégios, falha de segmentação interna ou comprometimento de componentes da própria infraestrutura de assinatura.
O ataque representa um dos maiores incidentes de segurança já registrados no setor de criptoativos e deve provocar uma revisão profunda dos modelos utilizados por grandes exchanges para administrar hot wallets.
Mais do que um ataque a uma blockchain específica, as evidências disponíveis indicam um possível comprometimento da infraestrutura responsável por autorizar operações em múltiplas redes simultaneamente.
Esse detalhe transforma o episódio em um estudo de caso particularmente relevante para segurança de sistemas financeiros digitais.
A Binance afirmou que continuará recompondo integralmente os ativos afetados, rastreando os valores roubados e colaborando com autoridades e empresas especializadas.
O relatório técnico definitivo da companhia deverá esclarecer a cadeia completa do ataque.
Até lá, porém, a principal conclusão já é evidente: em ambientes que controlam bilhões de dólares em ativos digitais, a segurança não depende apenas da proteção das chaves privadas.
Depende principalmente de garantir que nenhum sistema comprometido consiga convencer essas chaves a assinar aquilo que não deveriam assinar.
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